Entrevistas

Cícero Péricles, professor da Universidade Federal de Alagoas, analisa passado, presente e futuro da economia local.

Os gestores mudam e os principais problemas da economia alagoana – como falta de infra-estrutura e de política definida – seguem insolúveis. Por que isso acontece?

Pela mudança radical no cenário estadual dos últimos vinte anos. Entre os muitos problemas atuais dos governantes responsáveis pela economia alagoana, um dos maiores, sem dúvida, é a pressão exercida pela opinião pública no sentido da obtenção de mais e rápidos resultados. Todos querem mais indústrias, mais investimentos e mais dinâmica econômica. Essa pressão já dura duas décadas e reflete a nostalgia dos anos 60/80, quando a economia local teve seu período de ouro, tanto na ampliação de sua infra-estrutura como na atração de novos investimentos produtivos. Naquela época, Alagoas acompanhou o intenso crescimento da economia brasileira, puxado pelos fortes investimentos federais, foi o estado nordestino com melhor desempenho e sua economia também obtinha taxas “milagrosas”.

Estaríamos vivendo, então, um passadismo crônico de uma época dourada?

Sim. Os gestores e a sociedade ainda vivem essa nostalgia, pois foi um período ímpar na economia de Alagoas. Imagine que, em menos de duas décadas, o Estado assistiu a expansão de sua infra-estrutura nas áreas de telefonia, estradas, água, saneamento e energia elétrica, levada à prática pelas empresas estatais ou públicas como a Telasa, Casal, Ceal e DER. Naquela época, o Banco do Estado de Alagoas (Produban) realizava investimentos produtivos, crescia e se espalhava pelo interior do Estado. Em duas décadas, o Banco Nacional da Habitação (BNH), em combinação com o Ipaseal e a Cohab, construiu dezenas de conjuntos habitacionais populares, duplicando o tamanho da cidade de Maceió. Novos hotéis, como o Beira-Mar, Luxor e o Jatiúca, inauguraram a nova rede alagoana, deslocando o setor hoteleiro do antigo Centro para a parte litorânea.

Essa fase de florescimento abrangeu todas as áreas? Que condições havia na época e que hoje não existem?

Praticamente todos os segmentos se desenvolveram com abundantes recursos federais hoje inexistentes. Na área agrícola, o destaque foi para o Proálcool, que permitiu, de maneira simultânea, a construção de trinta novas destilarias, a modernização das usinas e a duplicação da área plantada com cana. O processo de industrialização fora do setor agroindustrial foi ampliado com o Distrito Industrial do Tabuleiro do Martins e com a presença de empresas de porte, como as metalúrgicas Fives Lille e Mecânica Pesada Continental e a siderúrgica Comesa. Nessa mesma época, novas empresas inauguram setores industriais no Estado, como a Salgema e a Sococo. Também fizeram parte desse processo de modernização, o novo Porto de Jaraguá com a construção do terminal açucareiro, o aeroporto que funcionou até 2005, e a nova estação rodoviária da capital. Algumas obras e iniciativas como a urbanização da Pajuçara, a TV Gazeta, o Cesmac, o Trapichão e o Parque das Flores, sobrevivem até hoje como símbolos daquela época. Tudo isso se refletia na capacidade do Estado em se financiar, entre os anos 70/80, quando Alagoas obtinha taxas altas em arrecadação per capita. O modelo dos anos dos governos Lamenha Filho, Afrânio Lages, Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira era o da construção da infra-estrutura, atração de novas fábricas e da ampliação da máquina pública, tudo de forma acelerada.

Como se explica a fase de estagnação – que se estende até os dias de hoje – em que a economia do Estado mergulhou tendo em mãos todas as ferramentas para seguir expandindo?

Os anos seguintes, de 1986 para cá, tiveram outras características econômicas, refletindo, também, o quadro nacional. Esse nova fase coincide com a volta da democracia e a eleição direta para governador e, desde então, todos os eleitos pelo voto popular – Fernando Collor, Geraldo Bulhões, Suruagy, Ronaldo Lessa e seus respectivos vices – tiveram a “gestão da crise” como marca na economia. A crise da dívida externa e crise fiscal do Estado brasileiro impactaram diretamente nos estados regionais, que passaram a ter taxas menores – e irregulares – de crescimento. Nesse período, sem o financiamento federal ou novos investimentos privados, a economia estadual diminui seu ritmo de crescimento, a máquina pública foi se desorganizando e Alagoas viu surgir um novo elemento complicador – a concorrência econômica entre os estados nordestinos, espelhada na “guerra fiscal”.

O prolongado período em que os gestores vêm trabalhando sob a égide da crise explica a estratégia de tentar “mostrar serviço” anunciando investimentos ainda não confirmados?

Seguramente. Desde os anos noventa o mundo político, social e empresarial cobra dos responsáveis pela condução das políticas econômicas resultados que, de alguma forma, se aproximem dos obtidos no período da ditadura militar. E isso, nos quadros atuais, é impossível. A arrecadação própria do Estado mal paga a folha de pessoal do Poder Executivo e a máquina pública alagoana vive das transferências federais. Suruagy caiu pela crise financeira e Ronaldo Lessa sempre afirmou que administrava sob o signo da “herança maldita” deixada por governos anteriores. O governo Téo Vilela é a mesma coisa e vive uma crise desde o mês de janeiro. Neste quadro de dificuldades, os anúncios de investimentos, de grandes projetos, de novas indústrias ou obras de porte fazem parte da reação – por vezes, pouco refletida, mas compreensível – dos gestores públicos da área econômica ante a pressão e a cobrança. Como esses anúncios não se realizam, eles geram uma relativa frustração nos agentes econômicos, um descrédito sobre as futuras iniciativas e um natural desgaste da imagem do administrador.

O secretário atual de Desenvolvimento Econômico, Luiz Otávio Gomes, segue na mesma linha do ex-titular da pasta, Arnóbio Cavalcanti. Não é hora de mudar de postura, levando em conta a real conjuntura econômica do Estado?

É muito difícil ser gestor público na área de economia neste momento. É importante diferenciar entre a situação financeira do Estado e a economia real. Os estudos do BNB mostram que a economia alagoana vem crescendo positivamente, ainda que com taxas menores que a média nordestina. Portanto, a crise é do Estado. Esse crescimento da economia real, nos últimos quatro anos, se deve aos fortes investimentos federais nas áreas sociais. Com a estabilidade da moeda, inflação baixa, salário mínimo real subindo, a economia alagoana foi beneficiada tanto pelos programas permanentes – educação, saúde – como pelas transferências diretas de renda. Mais de 30% da renda alagoana vêm de Brasília. Esses recursos – mais de 4 bilhões de reais – vêm estimulando o surgimento das empresas que produzem para os segmentos C, D e E. Alagoas acumula taxas recordes no consumo a varejo desde março de 2004. É nesse quadro que se deve pensar os novos investimentos. Os empreendimentos dirigidos ao público de baixa renda é o novo filão do desenvolvimento. E isso não é incompatível com a estratégia de construção da infra-estrutura e atração de novos empreendimentos.

Então, em que deve se basear a nova agenda econômica?

O crescimento pelo aumento de renda e do consumo necessita um passo adiante, que é o da criação do ambiente favorável a investimentos. Como a máquina pública está desaparelhada e o governo atual não tinha ainda tomado pé da situação do Estado, Alagoas não soube pressionar no momento da elaboração do Programa de Aceleração do Crescimento, no final do ano passado. Ficou quase tudo concentrado no Canal do Sertão. O governo do Estado ainda não possui uma agenda econômica comum para dividir com a bancada federal no Congresso Nacional, Assembléia Legislativa e setores empresariais. É necessário defender um conjunto de investimentos viáveis dirigidos a construir um novo ambiente econômico. Na atual conjuntura, a prioridade deveria ser a recuperação e ampliação do patrimônio existente e não investimento em novas obras.

Hoje, o que é fundamental para a economia do Estado?

Combinar esse crescimento da economia popular com desenvolvimento da infra-estrutura. Faz falta uma agenda que contemple desde a reativação da ferrovia, que está paralisada de 2000 pra cá, até as melhorias no Porto de Jaraguá, passando pela recuperação das estradas federais e estaduais; pela solução dos gargalos nas adutoras que abastecem o Agreste e Sertão e pela conclusão dos projetos de irrigação já em andamento em Arapiraca e Palmeira. Além disso, é necessário investir na ampliação da rede de energia elétrica do Estado e apostar em ações municipalizadas em projetos como a revitalização do rio São Francisco. O desbloqueio da situação de Alagoas no Prodetur, permitindo o saneamento do litoral alagoano também é fundamental para o fortalecimento do setor turístico. Vale ressaltar também que é preciso ampliar a captação de recursos para o microcrédito urbano e para o crédito agrícola familiar. Enfim, é necessário iniciar um conjunto de ações capazes de enfrentar, de maneira rápida e possível, o “custo Alagoas”, permitindo um ambiente favorável aos novos empreendimentos. Neste momento, o Canal do Sertão não deveria ser considerado prioritário, nem mesmo importante.

Trazer novos investimentos é, na sua opinião, de importância menor?

Os novos investidores são bem vindos, mas a prioridade deve ser a economia local e real. Alagoas está vivendo uma boa conjuntura econômica. As grandes redes do varejo como os grupos Wal-Mart, Pão de Açúcar, Makro, G Barbosa e lojas de departamento estão ampliando suas atividades aqui graças ao aumento da demanda. As vendas externas dos principais setores exportadores – sucroalcooleiro e químico – são crescentes e o turismo está sendo beneficiado pela conjuntura nacional, que estimula a classe média do Sul e Sudeste a viajar pelo Nordeste. Mas quem está dando o tom dessa boa conjuntura local são as milhares de pequenas e microempresas que estão movimentando a produção e o comércio popular, aproveitando a boa fase do consumo dos chamados segmentos C, D e E, tanto em Maceió como no interior. Infelizmente, para elas, as políticas de desenvolvimento – crédito, apoio técnico, formação profissional – são limitadas ou inexistentes.

Evandro Giacobbo, diretor regional da Miolo, fala sobre consumo de vinhos no NE

Tradicional vinícola gaúcha, a Miolo veio para o Nordeste em 1999 com o projeto da marca Terranova. Do Vale do São Francisco saem oito tipos de vinho que já caíram no gosto do nordestino. O carro-chefe é o delicioso espumante Terranova Moscatel, que cai bem em qualquer ocasião.

A expansão do consumo no mercado regional é uma realidade. Para manter o crescimento das vendas, a empresa tem como estratégia estreitar as relações com clientes e distribuidores e investir em qualidade.

O diretor regional da Miolo no Nordeste, Evandro Giacobbo, falou, em entrevista ao Moeda Corrente, sobre a exploração desse desafiador mercado e planos futuros da vinícola para a região.

O mercado de vinhos na região Nordeste é um segmento em expansão?

Sim, é a região do Brasil que mais cresce pela formação de uma nova cultura da bebida. As pessoas estão cada vez mais descobrindo o prazer do vinho.

Quantos produtos a Miolo fabrica hoje no Vale do São Francisco? Qual o carro-chefe?

Oito produtos. O espumante Terranova Moscatel ( 300 ml e 750 ml ) é o carro-chefe de produção com 65% mercado nacional. Os outros produtos são o espumante Terranova Brut e Demi-sec; Terranova Shiraz ( 300ml e 750ml ); Terranova Dry Muscat; Terranova Cabernet/ Shiraz; Terranova Late Harvest; Brandy Osborne; Terranova Bag in Box 3 e 5 litros de Shiras e Dry Muscat.

Quem são os principais concorrentes da marca aqui na região?

Temos Boticelli e Rio Sol.

Qual a posição que a Miolo ocupa hoje no ranking de consumo no Nordeste e no Brasil?

A Miolo Wine Group é líder de mercado nos segmentos de vinhos Premiun’s , com aproximadamente 25 %.

O nordestino tem consumido mais vinho? É difícil romper com a cultura da cerveja entre os consumidores da região?

O Nordestino tem consumido, sim, mais vinhos. Por vários motivos, como: aumento da qualidade, maior oferta de produto a preços cada vez mais atraentes, desenvolvimento da cultura do vinho, adequação dos estilos aos momentos, por exemplo a expansão do hábito dos espumantes e vinhos joviais. As pessoas estão querendo mais que tomar volume, querem qualidade, sabor e saúde.

Qual a estratégia de vocês para ampliar a fatia nesse mercado tão desafiador como o Nordeste?

Comercialmente falando, buscando reforçar os laços com distribuidores e clientes para que tenhamos distribuição numérica de nossas marcas. Segundo, mostrando os avanços da qualidade de nossos produtos através de degustações e apresentações. Bem como ampliando nossas parcerias, trazendo um portifólio cada vez mais completo.

O mercado alagoano é receptivo? Hoje temos mais lojas especializadas e, aparentemente, o consumo parece ter crescido. Vocês sentiram isso?

Sim. O vinho atrai cada vez mais aficcionados e é natural ter mais lojas e pontos de vendas com os produtos.

8 Respostas

  1. Ótima iniciativa. Não desista da idéia

  2. Milena
    Muto boa a idéia de comentar matérias lincadas à economia dos Estados nordestinos e, principalmente, Alagoas. Uma iniciativa interessante que trará mais conhecimento ao dia-a-dia do noticiário. Parabéns!
    Luciana Leão – jornalista , Escritório de Jornalismo (PE)

  3. Milena,
    Já comentei sobre seu blog por email, mas deixo aqui o registro da minha alegria por sua iniciativa. Muito bom ver vc com “a mão na massa” nessa área do jornalismo que vc é “fera”. Parabéns!

  4. Adorei o blog. Ótimo conteúdo, com visual limpo e eficiente. Parabéns pela iniciativa. Um abraço e boa sorte.

  5. Não poderia deixar de ser excelente! A matéria, o texto, a iniciativa. Sou sua fã de carteirinha, né, querida! Parabéns!

  6. Então…
    Um brinde!!
    Com Vinho, claro!

  7. Mlena, parabéns !!! Tomar conhecimento do seu trabalho é mais um motivo do orgulho que devemos ter e em particular eu tenho por ser seu conterraneo, seu amigo de infancia e conhecedor de todo o emprenho de sua familia no seu projeto de vida. Parabens mesmo. Um beijo grande.

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