
Em junho do ano passado, o engenheiro Flávio Decat, então presidente da Eletrobrás, aceitou a árdua tarefa de por ordem nas sete distribuidoras de energia estatais que conseguiram passar pelo funil das privatizações nos anos noventa.
Decat e seis dos mais renomados técnicos do setor assumiram a gestão da problemática e deficitária Companhia Energética de Alagoas (Ceal) e das elétricas Ceam (AM), Manaus Energia (AM), Cepisa (PI), Ceron (RO), Eletroacre (AC), Boa Vista Energia (RR). A tarefa do grupo de elite indicado pela Eletrobrás era a de tirar essas empresas da condição de deficitárias. Juntas, elas representavam na época nada menos que um prejuízo de R$ 1 bilhão.
Por aqui, a Ceal vinha de uma gestão extremamente viciada, contaminada pela ingerência política em detrimento de uma administração técnica, que resultou em anos consecutivos fechando no vermelho.
De junho a dezembro de 2008, sob a mão forte da Eletrobrás, a empresa conseguiu reverter o prejuízo de R$ 22 milhões e voltou a fechar no azul – R$ 39 milhões – depois de três anos de déficit. Em entrevista a O JORNAL, Flávio Decat, falou das mudanças implementadas na Ceal que levaram à recuperação, na estratégia adotada para acabar com os vícios arraigados na cultura das estatais, nos investimentos que serão feitos nos próximos três anos e ações para modernizar a gestão da companhia, como um programa de incentivo ao desligamento que tem como meta renovar 30% do quadro.
A Ceal vem de uma sucessão de maus resultados; em 2008, conseguiu ter o primeiro lucro em três anos. A que se deve esse desempenho?
Em primeiro lugar, um desejo obstinado em buscar os resultados que a sociedade espera, compromisso maior de uma empresa pública. Para transformar desejo em realidade, estabelecemos diretrizes empresariais e métodos de trabalho que, aplicados pelos administradores e empregados, propiciam uma melhoria continuada de receita e custos, focadas na qualidade do atendimento aos consumidores e na empresa de referência estabelecida pela agência reguladora, Aneel, para a concessão em Alagoas. Assim, conquistamos uma redução na inadimplência – sendo a mais significativa a negociação com a Companhia de Saneamento de Alagoas – uma pequena redução em perdas (0,79%) que proporcionou uma receita de R$ 7 milhões, melhores preços na aquisição de bens e serviços, dentre outras ações.
Apesar de ter fechado no azul, a companhia ainda possui um índice muito alto de perdas elétricas – mais de um terço. Como se conseguiu obter lucros com perdas tão volumosas?
Realmente temos uma perda expressiva de 30% da energia que adquirimos para atender ao mercado de Alagoas. A redução que obtivemos em 2008 ainda é tímida, razão pela qual vamos investir cada vez mais para chegarmos a um índice de perdas elétricas aceitáveis. Um dos maiores problemas que temos é o furto de energia que encarece a conta para todos e limita a realização de investimentos em melhoria e expansão.
Qual a estratégia que nova gestão tem para combater esse problema?
Estamos implementando um Plano de Ação que contempla a regularização de unidades consumidoras sem medição e perto de 11.000 ligações clandestinas, construção de redes especiais anti-furto – 110 km, telemedição em pontos estratégicos, recursos de telemetria, substituição de mais de 1700 caixas de medição e mais de 20.000 medidores eletromecânicos por medidores eletrônicos, sistema de prospecção de unidades com irregularidade, pontos de iluminação pública e sistema semafórico e campanhas educativas e de combate ao desperdício.
O que mudou dentro da administração da Ceal sob a gestão da Eletrobrás?
A Eletrobrás constituiu uma diretoria de Distribuição que assumiu, como primeiro desafio, reverter, no prazo mais curto possível, o prejuízo bilionário quando somados os resultados em 2007 das seis empresas que foram incluídas no seu portfólio de negócios. Para vencer tal desafio, com clara tendência de agravamento para o futuro, constituímos uma equipe de administração com pessoas experientes, estabelecemos um plano de ação para curto e médio prazos, comum para todas as seis empresas, considerando quando necessário as especificidades de cada uma, promovemos compras integradas, aportamos recursos para deixá-las adimplentes junto aos fornecedores. Enfim, implantamos um modelo de gestão integrada que está orientado para a gestão por processos, focada em resultados.
Como a Eletrobrás está combatendo a tradicional interferência política dentro da Ceal e das outras estatais que passou a gerir?
Esta é uma preocupação que não vem existindo, pois estamos cumprindo uma decisão política emanada diretamente do Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, de melhorar a gestão das empresas distribuidoras de energia elétrica com uma gestão profissional, com técnicos experimentados do setor elétrico. Esta decisão foi compartilhada com os governadores dos estados envolvidos. As soluções técnicas tem tido o aval e o reconhecimento do Ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, e do Presidente da Eletrobrás, José Antonio Muniz.
Houve redução dos numerosos cargos de comissão na Ceal?
Até houve redução, mas isto não é o mais expressivo. O que importa no que se refere à força de trabalho é o dimensionamento adequado, a divisão do trabalho, o desenvolvimento qualitativo e a motivação para bem cumprirmos nosso papel, atendendo as responsabilidades que são atribuídas a cada um dos que atuam nas empresas, dentre elas a Ceal. Estamos em fase de implementação de um programa de incentivo ao desligamento que deverá englobar até 30% do atual quadro de pessoal e abrir oportunidade de trabalho para pessoas mais jovens que por certo absorverão a experiência dos mais antigos, principalmente daqueles que honram o contrato de trabalho que lhes foi oportunizado.
Em que áreas da empresa houve investimento e qual o plano para os próximos anos?
Em 2008, investimos R$ 90 milhões. Para 2009, os aportes de recursos são de R$ 257 milhões, distribuídos no Programa Luz para Todos (R$104,5 milhões), Ampliação do Sistema de Distribuição Alta Tensão (36,0 milhões), Ampliação da Rede Urbana de Distribuição Média e Baixa Tensão (44,0 milhões), Redução de Perdas Técnicas e Comerciais (R$ 27,0 milhões) e Infraestrutura de Apoio (45,5 milhões). De 2009 a 2013, temos investimentos previstos da ordem de 900 milhões.
O senhor está animado com o desempenho das estatais? O que estava errado nessas distribuidoras?
Estou animado pelos desafios que se renovam e pelos resultados que já conseguimos em curto prazo, revertendo um prejuízo de mais de R$ 1,2 bilhão nas seis distribuidoras para um lucro de R$ 53 milhões, em praticamente sete meses de trabalho. Para este resultado a Ceal contribuiu com um lucro de R$ 39 milhões.
Quais as chances dessas empresas se tornarem tão competitivas quanto as da iniciativa privada?
Elas com certeza, a médio prazo, serão competitivas, mesmo considerando limitações que são impostas a empresas públicas quando da comparação com empresas da iniciativa privada.
E quais as chances de se tornarem atrativas ao setor privado? A venda dessas estatais é uma possibilidade?
Os serviços de distribuição de energia elétrica passaram a incorporar o portfólio de negócios da chamada Nova Eletrobrás, razão pela qual não cabe falar em venda de ativos de distribuição. Minha expectativa é que nossos consumidores inadimplentes paguem os valores devidos pela prestação de serviço, fato que somado à redução do furto de energia, dará melhores condições financeiras para a Ceal participar do esforço de desenvolvimento do Estado de Alagoas.
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